'Investimento no professor  a soluo'

O problema no  afalta de escolas, mas a falta de prestgio da carreira de professor

Da Reportagem Local

A taxa oficial de analfabetismo no Brasil  de 18%. Isto quer dizer que, para as estatsticas, cerca de 28 milhes de brasileiros no sabem nem ao menos identificar letras.

Educadores concordam que no h como comear a reverter esse quadro sem tornar novamente interessante a carreira do magistrio. Isto , pagar melhores salrios, treinar e exigir mais dos docentes.

Aumentar simplesmente o nmero de escolas e vagas no  prioridade. Mesmo em estados onde a cobertura escolar vagas disponveis-  aceitvel, o desempenho escolar  sofrvel.

A situao de boa parte dos 82% 'no analfabetos' no  muito melhor que a dos que nunca foram  escola. O critrio oficial identifica alfabetizados pela capacidade de "saber escrever um bilhete simples".

Conceitos mais exigentes, no entanto, abarcariam quase 60 milhes de brasileiros na categoria de analfabetos.

Para os critrios mais refinados, defendidos por pesquisadores de servios de estatsticas educacionais e educadores, a exigncia de quatro anos de escolaridade  o requisito mnimo para que algum no seja considerado um analfabeto funcional.

Isto , aquele capaz de aproveitar de alguma forma produtiva a instruo que recebeu e no regredir. No Brasil, quase metade da populao de mais de 10 anos de idade no completou esse ciclo.

O critrio que qualifica algum que saiba rabiscar um bilhete como alfabetizado foi estabelecido pela Unesco em 1958. A revoluo tecnolgica nos sistemas produtivos jogou esse padro no lixo.

"Mudou o paradigma da educao. As prprias empresas chegaram  concluso de que se a mo-de-obra no for melhor preparada, o pas no ter condies de competir internacionalmente, diz Clio Cunha, chefe do departamento de Projetos Educacionais do ministrio da Educao.

 justamente nessa rea que o governo federal investe menos.  atribuio dos governos municipais e estaduais a educao bsica, mas a maioria deles no tem recursos para construir escolas que no sejam taperas, quanto mais para bancar um ensino de qualidade.

"Nos municpios menores, a situao da educao bsica  muito ruim, tanto em termos de evaso e repetncia como em termos de nvel de conhecimentos dos alunos aprovados", diz Azuete Fogaa, professora da Universidade Federal de Viosa.

Pelo menos nos ltimos cinco anos, o governo federal vem investindo cerca de 50% a 60% de seus recursos em educao no ensino superior nas instituies federais de ensino.

"Recursos federais quase no vo para a educao primria. O resultado  que a Constituio no  cumprida", diz Cunha.

"A Unio  obrigada a investir 18% de seus recursos em educao. Boa parte desse dinheiro, cerca de 75%,  gasta com a rede federal, ou seja ensino superior e escolas tcnicas. Desse dinheiro, 25%  gasto com aposentadorias das universidades", afirma Cunha.

Professores

"A Coria, em meados dos anos 60, tinha um quadro educacional to ruim ou pior do que o brasileiro. Em duas dcadas e meia conseguiu que 95% dos jovens completassem o 2 grau", diz a professora Azuete.

"Como a Coria fez isso? Investiu na formao e na carreira do professor. Hoje, no Brasil, o magistrio primrio  a carreira de quem no tem horizontes", diz Azuete.

Tanto Azuete como Clio Cunha concordam que a extenso da rede escolar brasileira tem falhas, mas  satisfatria.

"O Brasil j conseguiu colocar cerca de 90% das crianas nas salas de aula, mas s poucas se formam e estas so despreparadas", diz Cunha. "A rede atende muita gente, mas atende muito mal. S 20% dos que entram chegam s ltimas sries do 1 grau.  muito dinheiro desperdiado pelo Estado e pelas pessoas", afirma Azuete.

Segundo ela, um exemplo de reforma  o Japo do ps-guerra. "na reconstruo, o governo selecionou os melhores alunos das universidades vocacionados para o magistrio. Alguns deles viviam em internatos, para se dedicarem mais intesnsamente aos estudos", conta.

A qualificao do corpo docente depende tambm de uma reforma na poltica de carreira e de salrios dos professores, segundo Azuete. "No Japo, um professor ganha mais do que os tcnicos de nvel mdio. Em geral, duas vezes e meia mais. Com isso, h procura suficiente para escolher os melhores", afirma a professora.
